julho 10, 2004
Sacanice
Não tenho postado sobre a situação polítca do país. Sobretudo não o tenho feito porque como leitor frequente de blogues vejo que há sempre alguém a exprimir os nossos argumentos de forma mais convincente e eficaz pelo que quase sempre me sinto redundante a escrever sobre determinados assuntos.
Hoje, depois de assistir a um belíssimo concerto da Adriana Calcanhotto em Mafra e após ter tomado conhecimento da decisão de Sampaio, não consigo deixar de me sentir absolutamente defraudado.
Parecia-me inconcebível o Presidente não convocar eleições antecipadas. Nomear como primeiro-ministro um cidadão que foi eleito para a chefia de uma Câmara Municipal e que tem um passado de prática executiva recheado de decisões mediáticas bizarras parecia-me impossível a mim, e suponho que a todos os outros que votaram em Jorge Sampaio. Eu que sou votante habitual do Bloco, votei excepcionalmente num candidato do Partido Socialista porque acreditei convictamente nos seus valores estruturais de esquerda. Porque o considerava um momem que dignificava a forma de fazer política. Hoje fez questão de provar o contrário. Sampaio tomou a decisão que mais poderia desacreditar os príncipios democráticos: deu o poder de forma ilegítima. Doravante a questão será sempre levantada e ninguém poderá esquecer-se de a lembrar: vale mesmo a pensa votar numas eleições legislativas? Que garantias terei de que será este e não um outro qualquer primeiro ministro a governar o país? Para quê escolher um presidente para a Câmara de Lisboa se ela serve como trampolim para vôos mais altos? E quem responsabiliza Santana Lopes pelo show off mediático da sua actuação em Lisboa? Ou será que como primeiro-ministro ele vai resolver tudo o que deixa por resolver?
sampaio esqueceu-se hoje que foi eleito maioritariamente por eleitores de esquerda. Sampaio esqueceu-se hoje que ficará irremediavelmente associado ao maior nojo político de que tenho memória.
Eu continua a acreditar que a política é a expressão de convicções e de ideologias que deve ser encarada com carácter e dignidade. Não vale tudo. A fuga de Durão Barroso e Santana Lopes dos cargos para os quais foram sufragados provou o quão baixo os nossos políticos são capazes de descer. Não me passava pela cabeça que Sampaio pudesse pactuar com esta forma de fazer política. Sampaio provou não merecer o meu voto e deu um contributo gigante para o descrédito total na nossa classe política de topo. Obrigado. Pior era realmente difícil.